Estava preso, e fostes ver-me (mateus 25:36)

Dois acontecimentos marcaram minha vida de forma impactante. O primeiro foi conhecer Pieter de Jong, cujo ministério em Cotia (NUEPO) consiste em atender os miseráveis e marginalizados. Executivo aposentado, atendia longa fila de necessitados em sua casa, até que um dia seus amigos e apoiadores o presentearam com uma ONG, com sede atrás do Bem-te-vi, no km. 25.

Seu segredo, disse-me ele, era que Deus lhe tinha dado o dom de ver, em cada molambo de gente, alguém criado à imagem e semelhança de Deus, de forma que os percebia como tão válidos como pessoas quanto qualquer outra. Impacto igual, embora negativo, tive no domingo após a tragédia do Carandiru, quando 111 presos foram executados pela PM de São Paulo. Ao chegar à igreja, encontrei-me com os presbíteros e outros crentes de longa data, unânimes em condenar o ato por “só terem matado 111!”. Fiquei chocado. Esperava, então, que do púlpito viesse uma palavra que mostrasse o horror do que tinha acontecido. Não veio.

Anos mais tarde, Deus me colocou, contra minha vontade, num programa individual de visitas a um preso que durou quase cinco anos. Era um tempo de rebeliões, e a moda era fazer reféns. Sofríamos, Christine e eu, com cada visita: a ida era certa, a volta, nem tanto…

O que me sustentou, durante este período, foi o fato de que, em cada visita, eu tinha, na figura do preso, um encontro com Jesus (se o fizeste para um desses pequeninos, o fizeste para mim). Não que eu saiba, mesmo hoje, o sentido exato destas palavras. Mas o fato é – já que afirmado por Jesus – que Ele está, de alguma forma, em cada faminto que alimentamos, sedento a quem damos o que beber, estrangeiro que hospedamos e preso que visitamos.

A Madrugada do Carinho faz todo sentido.

Thomas Hahn